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As carvoarias e o trabalho escravo

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Olha, não tem sacanagem maior que se pode fazer com um trabalhador, do que escravizá-lo. Você tem aí o seu emprego, tem patrão, responsabilidades, méritos e deméritos? Pois é, eu também. Com a exceção do patrão que eu realmente não tenho, mas tenho clientes e olha: eles dão trabalho. Chega a me dar saudades do patrão, viu? Enfim, o que importa é que todos aqui temos relações de trabalho.

Mas o que rege essa relação? Uma coisa bem simples chamada troca. Funciona bem assim: Você dá a sua força de trabalho em troca de dinheiro. Grana, bufunfa, cascalho, dindin e daí por diante. O motorista do trator pilota o bicho pra dentro do buraco em troca de algum dinheiro. O piloto de jato aperta botão, move alavanca e fala com a torre de controle em troca de dinheiro. Até aquelas donzelas acaloradas que acham todo mundo bonito também dão a sua força de trabalho em troca de dinheiro. A força de trabalho e mais alguma coisa, mas isso não vem ao caso.

Mas tem gente nesse país (aliás, nem só neste, porque a safadeza faz parte da natureza porca humana) que não curte muito essa coisa de pagar pelo trabalho dos outros. E não tou falando de chefe muquirana, não. Você ganha pouco, tá insatisfeito com o teu salário? Pode ser uma situação ruim, mas você aceitou aquele acordo, e, enquanto teu salário tá sendo pago, existe um acordo em curso, sendo cumprido por ambas as partes. Você pode exercer o direito de pular fora e trabalhar na horta do vizinho, que é sempre mais verde :-) ou tem o direito de ficar vendo TV em casa. Assim como tem o direito de fazer corpo mole e tomar uma justa causa. Tá tudo na regra.

Acontece que não é desse tipo de relação estamos falando. O assunto aqui é trabalho escravo, aquele que o empregador não te paga nada, te esfola, te prende e você ainda fica endividado. Essa é uma das maiores sacanagens humanas, e, infelizmente, tem bastante gente por aí que ainda tem a mentalidade retrógrada de achar que tem o direito de sair por aí escravizando gente simples, pobre e que não tem recursos culturais ou intelectuais pra se defender.

Aí o mais astuto dos leitores me pergunta: "Mas meu caro, o que esse papo de escravo tem a ver com as nossas saborosas carninhas na grelha?" e eu respondo: "Meu caro leitor, já parou pra pensar de onde vem o carvão que nós alegremente depositamos em nossas churrasqueiras?".

Fiquei sabendo, hoje, que o Ministério do Trabalho havia criado uma lista, chamada Lista Suja, onde eles divulgam aqueles que foram pegos mantendo trabalhadores em situação de escravidão. Belíssima iniciativa, não? Pois fui lá eu, curioso como uma marmota (?), averiguar a tal lista.

Foi quando levei um susto, daqueles de borrar a cueca, arrepiar o cabelo e doer a cárie do dente: figurava na lista o nome de uma carvoaria, cujo nome é idêntico a uma das melhores marcas de carvão que conheço: o Carvão São José.

Mas como?? Não conseguia acreditar, até que me lembrei que eu tenho, neste exato momento, um saco de tal carvão aqui. Conferi e tenho algumas observações a fazer:

  1. O CNPJ descrito no saco do carvão não é o mesmo que consta na lista. Pode não ser a mesma empresa, como pode ser. Uma empresa pode ter um CNPJ para a matriz, e outro para a filial;
  2. A lista está aqui;
  3. São José é um nome deveras comum, não acham? Podemos ter aí uma injusta e infeliz coincidência;
  4. No site do MT, não fica muito claro se as empresas foram somente autuadas, ou se foram julgadas e condenadas. Portanto, muito cuidado ao fazer juízo delas;
  5. O MT atualiza a lista com frequencia, inserindo e retirando nomes e empresas. Vale a pena conferir a lista sempre.
Bom, seguindo o mesmo comportamento que nos levou a descobrir que as carnes Maturatta, da Friboi, são mesmo maturadas, aproveito este nobre momento para despir-me do avental de churrasqueiro, largar a cerveja e adentrar a cabine telefônica mais próxima para me transformar no super-herói dos churrasqueiros oprimidos, o invencível REPÓRTER NA GRELHA!!!

Pois assim procedendo, enviei um e-mail ao Fale Conosco do Carvão São José que nós conhecemos solicitando um esclarecimento, e abrindo este canal de comunicação para a empresa.


O e-mail que enviei foi este aqui:


Olá!




Escrevo regularmente num blog sobre receitas de churrasco, além de ser consumidor voraz do carvão, que considero um dos melhores à venda na minha região (São Paulo).
Porém, numa conversa via e-mail com um dos leitores, fiquei sabendo da "lista suja" do Ministério do Trabalho, que cita uma empresa chamada "Carvão São José" como acusada de se beneficiar do trabalho escravo no município de Brejo Grande do Araguaia, PA.
Como consumidor do produto e simpatizante da marca, me assustei com a informação, e corri para tentar averiguá-la. Com um saco do carvão em mãos, pude notar que o CNPJ não é o mesmo que consta na lista do MT.
Minha dúvida é: trata-se de outra carvoaria com o mesmo nome, ou o Carvão São José é a mesma empresa que consta na lista?
Gostaria de levar a informação aos meus leitores de forma isenta porém informativa, seja ela qual for. Creio que, ao se tratar de uma infeliz coincidência, esta pode ser uma ótima oportunidade de esclarecer os fatos.
Muito obrigado Daniel Rodrigues http://deitadonagrelha.blogspot.com



Vamos aguardar a resposta, esperando, sinceramente, que se trate de outra empresa. Sou um voraz consumidor do carvão São José, seria muito triste receber uma notícia negativa deles.


13 comentários:

Anônimo disse...

Bacana Daniel essa tua iniciativa (já é a segunda!).
No frigir dos ovos, vamos ficar no aguardo dos esclarecimentos, afinal de contas, que consome, somos nós.
Pq. se fazer de "cego" é mais prático e conveniente.
Abração

CSá

Daniel Rodrigues disse...

Pois é, CSá.

A gente mora num país cheio de problemas e injustiças, e sempre mete a culpa no governo. Só que dessa vez, o governo fez a sua parte. Foi lá, descobriu o trabalho escravo, libertou os trabalhadores, processou as empresas envolvidas, e ainda fez uma lista para nós, os cidadãos fazermos a nossa parte. Vamos concordar que a gente não tem do que reclamar, né?

No caso da Friboi, a empresa foi exemplar e jogou limpo. Vamos torcer pra que tenhamos um final feliz nessa, né?

Valeu o apoio

Abs
Daniel Rodrigues

RAPHEL OLIVEIRA disse...

Podes crer Daniel, tu tá certo. Vamos aguardar ...

Obrigado pela visita, se soubesse que iria aparecer, colocaria uma carne no fogo ( rs,rs, rs)

Um abraço e Saudações Rubro-Negras,
Raphael

Daniel Rodrigues disse...

Raphael

Pode por a carninha lá, eu apareço de novo :-)

Só não me venha com essa de rubronegrice que eu não quero falar de futebol hehehe

Abs
Daniel Rodrigues

Anônimo disse...

Daniel, venho acompanhando o seu blog por um tempo, muito bom por sinal, mas la das bandas que eu venho e fato sabido e notorio que a maioria das carvoarias usam de trabalho escravo, sempre evitei comprar carvao, uso lenha da fazenda mesmo sempre que posso, mas infelizmente nao tem muitas carvoarias que se salvam. Vamos concientizar a galera, parabens pela iniciativa.

Leonardo

Daniel Rodrigues disse...

Fala Leonardo, tudo bem?

Primeiro, muito obrigado pelo teu testemunho. Muito bom poder ouvir experiências de quem conhece a "linha de frente".

Pois é, cara. Eu, mesmo aqui em SP e longe de qualquer carvoaria, já imaginava que seria assim. E foi justamente por isso que resolvi meter o dedo na ferida da empresa que apareceu na lista.

Na real, é o máximo que eu posso fazer. Essa lista é uma excelente iniciativa do governo, porque começa a fazer esses caras passarem vergonha. Se as pessoas divulgam, e deixam de comprar produtos dessas empresas, em algum dia eles vão tomar vergonha na cara.

Pode ser meio utópico, mas sei lá. Tou fazendo o máximo que eu posso. Tomara que dê algum resultado.

Quanto ao carvão são josé em si, ainda não tive nenhuma resposta.. tomara que não deixem de responder ao meu email, viu.

Valeu!!

Abração
Daniel Rodrigues

André Costa disse...

Daniel, venho acompanhando seu blog há alguns meses, mas não fiz nenhum comentário até hoje. Aproveito esse post "nobre" pra parabenizar você pelo conteúdo que você sempre disponibiliza e que tanto ajuda os aprendizes de churrasqueiro como eu. Grande abraço! Aparecendo em Curitiba, não deixe de avisar pra provar o churrasco deste baiano perdido no sul do país!

Daniel Rodrigues disse...

Fala André, tudo bom, compana?

Po, obrigadão pelas palavras. Fico bastante feliz por saber que estas porcarias que escrevo por aqui estão sendo úteis pra alguém :-)

Pode deixar, se passar por Curitiba, passo por aí pra uma carninha! Valeu!!

Grande abraço
Daniel Rodrigues

João Paulo disse...

Fala Daniel,

Seguinte, em relação ao CNPJ, quando se trata de uma filial, o número continua o mesmo, só mudando a numeração após a barra (/).
Ex.: matriz : xx.xxx.xxx/0001-xx
1ª filial aberta: xx.xxx.xxx/0002-xx
998ª filial aberta: xx.xxx.xxx/0999-xx. Claro que os sócios poderiam abrir outra empresa com outro CNPJ mas aí não dá pra gente saber (na verdade eu consigo saber já que trabalho na Receita Federal, mas pesquisar uma empresa por curiosidade seria antiético)rsrsrs.

Um abraço,

João Paulo

juliana p disse...

Olá Daniel, parabéns pelo post.
É muito importante este tipo de iniciativa.

No blog da Maturatta saiu um post sobre carne maturada http://migre.me/gs20 espero que você possa ler e dar dicas!

obrigada pela atenção

Daniel Rodrigues disse...

João Paulo

Sensacional!!! Muito obrigado pelo esclarecimento.

Não sabia que a filiar continuava com o mesmo CNPJ, mudando so o final. Achei que seria um número completamente diferente.

Bom, vamos aguardar a resposta da empresa (que, até agora, nada né?).

Valeu!!!

Abs
Daniel Rodrigues

Anônimo disse...

DR,

Adorei sua reportagem sobre o trabalho escravo, como editorial desta "espelunca" (como você mesmo diz) que é seu blog. É sempre muito bom saber que os consumidores mais e mais estão querendo saber de onde estão vindo seus produtos preferidos. Também sou fão do Carvão São José (o melhor para mim).

Nada a ver agora: Você abriu uma loja de artigos para churrasco? Tô com uma pulga atrás da orelha e não sei se é sua...

Abs

Caio Racca

Daniel Rodrigues disse...

Fala Caio, tudo bem?

Bem legal isso, né? Fiquei feliz com o desfecho da história. Não apenas os consumidores estão querendo saber de onde vem os seus produtos e tal, mas como também as EMPRESAS estão querendo mostrar isso aos consumidores. Você consegue imaginar o desfecho desta história a, sei lá... uns 10 anos atrás?

Nada a ver, mas tudo a ver: a loja não é minha. Mas, já aproveito pra abrir o jogo aqui, pretendo abrir uma num breve bem breve. Qual é a loja, tem o endereço? É loja virtual ou loja física?

Valeu compana!!

Abração
Daniel Rodrigues

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