Antes que você possa dizer Adeus, mundo cruel, o escriba aqui castiga as pedras do teclado pra elucidar ao mais enigmático leitor o que é um semi-deschurrasqueirado. Comecemos, ora pois, pelo começo.
Semi é aquele que é quase. Semi-Deus é um cara quase Deus. Semi-analfabeto é um cara que quase não sabe ler, e semitério é o lugar pra onde eu vou, se continuar maltratando o português só pra encaixar o trocadilho. Ou seja, o semi é aquele que chega perto mas não leva. Não leva a medalha de ouro, não vai pro pódio, não tem pedigree, não deixa cheiro e não solta as tiras [/havaianas feelings]. Rubinho Barrichelo é um semi-piloto, por exemplo.
Então você entendeu que eu estou quase em alguma coisa, certo? E essa coisa que eu estou quase é deschurrasqueirado. Vem comigo desvendar mais essa fanfarrice morfológica da nossa linda e pulsante língua portuguesa de desportos. O "Des" sempre lembra a perda. O curintia, recentemente, foi DESclassificado da copa Libertadores 2011 pelo Tolima kkkk.
Quando a gente coloca o ado/ada no final da frase, estamos dando um sentido de posse àquela expressão. "Mamãe, estou gripado". Significa que eu tenho, sob minha posse, uma gripe. "Muita cerveja me deixa mamado", significa que eu, após a ingestão de quantidades industriais de cerveja, adquiro mamas. E, como subsequente, nelas mamo, ficando mamado. Não, não mamo nas minhas próprias mamas, mas você entendeu o que eu quis dizer.
Esse é o sentido da coisa. O cara semi-deschurrasqueirado, no caso, EU, está quase sem churrasqueira.
Vou contar a história da minha churraca.
Há alguns anos atrás, eu morava num apartamento muito bacana, que tinha uma sacadinha modesta. Era uma casa muito engraçada, aquela coisa toda, e não me interessava se ela não tinha teto, não tinha nada, ou se as pessoas não podiam fazer xixi. O que importava era a sacadinha. Além da sacadinha, eu tinha uma churrasqueirinha de alumínio, que me acompanhava todo santo final de semana, corajosamente desafiando as leis do condomínio e periculosamente esfumaçando as retinas dos meus vizinhos.
Até que surgiu uma oportunidade e eu fui morar em outro apartamento, este com regras de condomínio mais flexíveis, e no lugar da sacada, um quintal. Pois é, um apartamento com quintal é tão paradoxo quanto uma moto com airbag, um avião com bote salva-vidas ou um tanque de guerra com cd-player e ar condicionado. Mas, se os publicitários vendem carro fazendo propaganda com um cachorro-peixe, eu me dou o direito de morar em apartamento e ter quintal. E, garanto, tem cachorro. Mas não tem peixe. Enfim, vida que segue.
E, como de bobo eu não tenho quase nada (ou tenho quase tudo, vai saber), antes mesmo de mudar já fiz questão de meter uma churraca no quintal. Fiz tanta questão que meti os pés pelas mãos, pisei no tomate e entrei pelo cano. E o resultado é esse: Meu nome é Daniel, eu sou um semi-deschurrasqueirado e só por hoje, eu ainda não fiz nenhuma lambança. Só por hoje, mas naquele dia, eu fiz.
Assim que a notícia do apartamento novo surgiu, os amigos, no sorrateiro silêncio do msn messenger combinaram que me dariam uma churraca de presente. E não me contaram isso. Eu, com a ansiedade e o auto-controle de uma manada de búfalos em fuga, só conseguia pensar em rechear aquele recinto com uma churrasqueira, fosse ela qual fosse. Os amigos, na sabedoria milenar que só a amizade é capaz de proporcionar, serenemente confabulavam: "tomara que aquele idiota não meta qualquer churrasqueira no quintal, enquanto procuramos a melhor churrasqueira do mundo pra dar pra ele". E, Murphy salva, lá foi o idiota aqui desgovernadamente rumo ao leroy merlin mais próximo, adquirir QUALQUER churasqueira que coubesse no porta-malas do meu automóvel.
Avisados pela minha prestativa senhora, os amigos se uniram às pressas e correram ao meu encontro para, pelo menos, assinar o cheque e me prover tal iguaria. No fim das contas, eu havia escolhido uma churasqueira que não era aquilo que eles queriam me dar, mas deram porque senão eu ia comprar. Coisa de gente equilibrada e serena. Eu sou assim, pode perceber.
Era uma churrasqueira pré-moldada, daquelas de concreto. A churraca em si é uma boa churraca. Mas fica reservada às limitações de um produto de concreto, sem qualquer proteção, depositada ao relento, trabalhando sob chuva e sol (literalmente, por acreditar).
E, tal e qual acontecido com suzana vieira, hebe camargo, cláudia raia, fafá de belem e outras tantas beldades que o tempo enrijeceu, minha churraca sucumbiu ao caminhar do tic-tac. Pela primeira vez, me arrependi por não ter seguido os sábios conselhos da madrinha deste blog, a apresentadora matinal que encheu a face, os seios e sei mais o quê de botox e silicone buscando a juventude eterna; optei por não pintar, e nem recobrir a minha churraca, o que, assim como no caso da apresentadora, poderia representar algum photoshop na sua decadência.
E o fato é que, passados bons 3 anos de trabalhos forçados, comunico que a minha churraca não morreu, mas tá na rampa. Pra morrer, só falta deitar. Fiz churrasco no frio, ela trincou. Choveu, ela encharcou, eu botei fogo de novo, e a trinca aumentou. A sujeira de centenas, milhares de churrascos impregnou nas suas entranhas, que agora não tem nem mais cor. E chegou a hora de adquirir uma nova.
Logo, nada mais justo do que reviver a saga "Especial Churrasqueiras" aqui do blog, registrando a minha busca pela churraca, desta vez, ideal.
Assim sendo, torçamos para que a minha brava companheira não decrete a auto falência múltipla dos próprios órgãos, enquanto eu procuro uma nova.
Aceito dicas, sugestões, palpites e todo tipo de críticas a respeito da minha insuportável falta de controle emocional. Afinal, se tivesse deixado os amigos fazerem o seu trabalho, eu JÁ teria a churraca que estou agora procurando.



