Strogonoff, uma pérola da culinária soviética

Sou um cara das antigas. No meu tempo, a Rússia era apenas uma província da URSS, que respondia pelo pomposo, vistoso e lustroso nome de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Aliás, não respondia não, porque tinha uma tal guerra fria pegando, todo mundo com medo da bomba atômica, do MIG 29 (quem nunca assistiu Top Gun que atire o primeiro F-16), da estação MIR e da cadela Laika. E eles não respondiam nem pros Ianques, pra quem todo mundo respondia, então quem sou eu de falar que eles respondiam por alguma coisa..

Naquele tempo, os nossos camaradas, além de beber vodka, mandar foguete com cachorro pra lua e infernizar os americanos, se alimentavam alegremente com um delicioso prato que responde pelo nome de строганов.

Entendeu? O prato se chama строгановстроганов é uma coisa que se come. Não se fala, mas se come. A menos que você tenha feito parte da KGB num passado remoto (e se fez eu tenho medo de você), imagino que não consiga pronunciar o nome do prato. Cтроганов não é como feijão, arroz... Ou até mesmo Feijoada, que qualquer gringo sabe falar. Eles vão no boteco, falam "Feixoara" e o prato vem. Se eu ou você, ou nós dois juntos, formos à Rússia (prefiro chamar de União Soviética, mais charmoso) e pedirmos um строганов, ou ficamos com fome; ou levamos um cacete.

Imaginemos um tal de Sr. Dimitri Vladivostok (joguei muito War na adolescência).  Camarada Dimitri estava a largar a URSS querida e lançar-se ao mar rumo ao Brasil, como tantos fizeram nos tempos pós-segunda-guerra. Munido de toda a vodka que conseguia carregar, o Camarada Dimitri aportou nesta terra onde se plantando tudo dá, e começou sua pacata vidinha numa igualmente pacata cidadela deste nosso Brasil varonil. Solícito com os amigos e vizinhos, o simpático Camarada sempre convidava a todos a saborearem sua deliciosa строганов, receita cuidadosamente passada de mamuska em mamuska pela sua família, há séculos. E ninguém comparecia.

Rápido como uma Perestroika, Dimitri logo percebeu que as pessoas não iriam querer saborear um alimento do qual não entendiam uma única letra do nome. Ok, todos sabemos que строганов começa com C, mas essas línguas são muito loucas e de repente o C tem som de Y, ou de 9. Então ele colocou o wladimir e o mikhail tico e o teco pra funcionarem e numa bela tarde ao som de raul seixas... ele, que já passou pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho, que ele lhe falou: STROGONOFF é a alcunha da sua oferenda, meu caro Dimitri.

Não seria nada incompreensível como строганов, não abandonaria as suas raízes bolcheviques, não lhe faria um traidor de stalin, mas ao mesmo tempo era uma palavra que todo mundo  conseguiria pronunciar. Pois foi assim que o nosso destemido filho da Mãe Rússia saiu pelas ruas da pacata cidadela do nosso Brasil varonil gritando aos quatro ventos "Venham comer o meu Strogonoff!!!!". E foi um sucesso. Alguns estavam curiosos com o alimento, outros com pensamentos impuros em relação ao nosso camarada, mas como este estava com os cornos cheios de vodka, o resultado final é que todo mundo saiu feliz.

Agora vamos parar com essa enrolação e mãos à obra preparar essa verdadeira delícia da culinária Moskovita.

Por falar em Moskovita (R$6,90 aqui no Super Vizinho, mercadinho perto de casa), abra logo uma dose de vodka e façamos um brinde ao som das trombetas. Cantando comigo:

С помощью транслитератор из букв латинского алфавита получаются буквы кириллицы, иврита, белорусского, греческого, или украинского алфавитов. Этот транслитератор задумывался как сервис для русскоязычных жителей стран , находящихся за границей и желающих переписываться на родном языке. Если кто-нибудь говорит "Я пользуюсь транслитом", то всем понятно - речь идет. Еще его называют просто

«транслит» или  желающих переписыват!!!
«транслит» или  желающих переписыват!!!
«транслит» или  желающих переписыват!!!
«транслит» или  желающих переписыват!!!

Cantou? Então bebe logo essa vodka e comecemos a nos embriagar com mais uma receita com o padrão de falta de qualidade Gato na Grelha:

A primeira coisa que você vai precisar é de um bom pedaço de carne e uma faca afiada. Mas que carne? Você pode preparar um strogonoff maneiro com vários tipos de carne (patinho, acém, alcatra...) Fuja das carnes muito gordurosas, que vão fazer do seu strogonoff um poço de banha, e fuja daquelas carnes que têm muita fibra, como o contra-filé. Na verdade, quem vai definir que tipo de carne você vai usar é o seu bolso. Patinho é barato, alcatra já nem tanto mas também não é uma fortuna, enfim. E como estamos falando do SEU bolso e não do meu, vou logo chutar o balde e te deixar cheio de carnê do açougue pra pagar: Hoje vamos de filé-mignom, parceiro.

Sou muito fã desse corte. Eu e a torcida do curintia, do framengo e do parmera, né? É uma carne muito macia, muito saborosa, e que mantém o sabor e maciez mesmo sob condições extremas. E vamos colocar nossa carne sob condições marromeno extremas. Então é bom ela aguentar o tranco.

Nada disso de chegar no açougue e pedir aquele picadinho pronto pra strogonoff. Ali eles cortam do jeito que querem, pedações grandes, e você nunca vai saber se tem um filé de gato ali no meio. Então larga mão de preguiça e bora lá picotar nosso filé mignom. Pra nossa receita, uma peça de meio quilo já é o suficiente. Principalmente porque o FM (dá muito trabalho ficar digitando o tempo todo. Vamos chamá-lo de FM) é uma peça muito limpa, praticamente sem nervos ou gorduras, então você vai aproveitar praticamente 100% desse meio quilo.

Aí, merrmão.. o processo é o seguinte: afia a tua faca, concentra no que tá fazendo e picota a carninha até obter meio quilo de pequenos pedaços do tamanho de meio polenguinho. Teve infância, compana? Então você sabe do que eu tou falando. Picota mesmo, sem técnica, sem critério. Se você já esquartejou uma pessoa, saberá como fazê-lo. Se não esquartejou uma pessoa, também saberá. Foca na miopia e polengo na mente que você consegue.

Agora é hora de temperar o FM picado. Você ainda tem uma trabalheira pela frente, e aí a tua carne vai pegando gostinho do tempero, o que fatalmente vai se transformar em mais amor no teu prato

ATENÇÃO: Isso foi uma PIADA. JAMAIS coloque sazon num filé-mignon!! Nem fora dele. Não gosto desses temperos de gultomato monossódico, não. Enfim, gosto pessoal. Se você quiser colocar sazon, coloca. Mas não me conta que a gente perde a amizade.

Você pode temperar o seu FM como quiser. Pelas experiências que eu já tive, recomendo apenas um pouquinho de uma pimenta tipo tabasco, pimenta do reino e sal.

Não recomendo usar temperos liquidos em abundância
, porque você vai ter que fritar essa carne depois. Muito liquido pode miar a sua fritura e você acabar cozinhando a carne. Também não recomendo temperos com folhas.. Uma vez eu usei orégano. O sabor até ficou legal, mas o orégano soltou da carne, obviamente, e ficou boiando pelo strogonoff, dando um aspecto meio esquisito. Nem pimentas em fruta, pelo mesmo motivo. Uma biquinha, por exemplo, vai ficar boiando no molho depois... Estranho.
Vai de sal, pimenta do reino e tabasco que é sucesso.

Agora vai mexendo até o chão na boquinha da garrafa tudo aí e deixa o FM quietinho. Vamos à próxima:

Aproveita que a faca tá afiada, que você ainda tá sóbrio (eu acho) e que a animação tá te contagiando e tome mais uma dose de vodka picote uma cebola. Picota pequeno, compadre. Lembra sempre com essa sua cabeça de vento que você está fazendo um strogonoff de FILÉ MIGNON, e não um strogonoff de cebola. Pega duas panelas, e divide essa cebola picada em duas partes. Uma pra cada panela.

Aí o mais fino, elegante e sincero leitor desse blog me pergunta: "Mas por que duas panelas, meu caro escriba?"

E eu respondo: "Научиться пользоваться еще проще с помощью, наглядной!", o que significa: "Para fazermos um belo e saboroso arroz branco, camarada!". Mas aí surge um problema daqueles capazes de ruborizar o mais sem-vergonha dos leitores: Sim, eu sei fazer arroz. Sim, eu sei cozinhar coisas saborosas, elaboradas e elas costumam ficar deliciosas.... Menos o meu arroz. Meu arroz é péssimo. Em todos esses anos nessa indústria vital, eu nunca consegui fazer um arroz que não ficasse uma papa. Daqueles que você puxa um grão e vem a panela toda, sabe? Então. Por este motivo não tem nenhuma receita de arroz aqui no blog (tem algumas, mas tem migué. Lê que você vai entender). E por isso eu sempre pulo a confecção deste alimento nas minhas receitas. Assim como o farei novamente. Agora. Faça o arroz como quiser, ok?

Por favor, aceito dicas inbox.

Voltemos à panela do strogonoff, que é a única que nos interessa hoje. Aproveitando essa picotagem toda, picota bem pequeno E CUIDADO COM ESSE DEDO AÍ um dentinho de alho, daqueles que não são nem minúsculos, nem imensos. Nem o dente de leite do seu filho, nem o sabre do mamute. Você entendeu.

Vodka. Tome vodka. Se for balalaika, tome um pouco menos.

Tomate, chegou tua hora. Pode te preparar pra sofrer a mais desumana das torturas. Embora o tomate não seja humano. Mas ele é um vegetal que na verdade é uma fruta, e como tem muito humano que também é fruta, considero sim o tomate um humano e bora pra tortura.

Sabe tirar a pele do tomate? Não, você não vai descascá-lo como a uma laranja. Isso aí não tem a menor graça e  gente tá aqui pra ver tomate sofrer. Então pega uma panela, enche de água e bota pra ferver. Quando estiver a pino, jogue, sarcasticamente, o tomate lá dentro. Delicie-se com os seus gritos e súplicas de dor. Mas fica de olho, esses tomates são muito espertinhos e derretem rápido. E ainda vamos judiar um pouco mais. Tá de olho? A pele do tomate já fez algum rasgo? Isso mesmo, a pele do nosso prisioneiro vai abrir em algum ponto. Quando isso acontecer, tira ele da água quente. Agora olha que cruel: deita ele na sua tábua e vai arrancando cuidadosamente a pele, enquanto ele te conta toda a verdade. A pele se solta rapidinho e neste momento você terá um tomate sem pele. E sem vida.

Então pára de maldade, picota o tomatinho e guarda em cima da tábua mesmo.

Recapitulando:
1 - Picotamos uma linda peça de FM e temperamos. Ela tá em algum lugar da sua cozinha esperando por você. Pode ser em qualquer lugar, menos dentro da panela, ok?
2 - Picotamos meia cebola, esta sim está dentro da panela.
3 - Deixamos um alho banguela e o resultado está picotado dentro da panela.
4 - Temos um tomate sem pele, sem vida e sem dignidade picotado em cima da tábua.

Perfeito. Agora a coisa vai começar a cheirar bem...

Regue a cebola e o alho com azeite até cobrir o fundo da panela (tou acreditando que você pegou uma panela compatível com meio quilo de carne, certo?), e acenda, finalmente, o fogo debaixo dela.

O refogado é um dos momentos mais sublimes da culinária. Por isso, enquanto a cebola chia dentro da sua panela, tome mais uma vodkinha. Não sei você, mas eu já estou começando a ficar meio bebum. Bola pra frente.

Quando a cebolinha começar a ficar amarelinha, parecendo meio transparente, é a hora do FM entrar no jogo. Taca lá pra dentro todo o FM que você picotou. Dá uma mexidinha pra ele fritar legal.. Com o tempo, a carne vai começar a soltar um líquido e fazer daquilo um caldo com um cheiro delicioso. Pra saber se a carne tá no ponto... Tira uma e come, ué. A carne não pode estar mal-passada de jeito nenhum, porque a partir de agora, não vai mais ter fritura. Quando estiver no ponto, joga lá dentro o tomate. Dá uma mexidinha e deixa.. O tomate tende a se dissolver, ou a ficar bem molinho.

Ah, esqueci de um cara importante: O Champignon. Sabe aqueles vidrinhos pequenos que vende no mercado, com campignon já picado? Então, taca um dele pra dentro. Se não estiver picado, pique. É importante ele ser pequeno. Só toma cuidado e não deixa aquela água da conserva cair dentro da sua carne.. Ela é salgada e cheia de conservantes, vai estragar a receita. Cuidadaê!

Agora um toque que eu, particularmente, gosto muito: Vai na geladeira, pega aquele catchup que você tem lá e manda uma golada responsa pra dentro. É  mais ou menos a quantidade de catchup que você colocaria num X-Salada inteiro. Você vai saber o quanto.


Se você tem um catchup de qualidade na sua geladeira, tanto melhor. Se não tem, dá uma busca aqui no blog que tem uma receita maneiríssima de catchup da melhor qualidade.


Mexe. Tá ficando com um molho vermelhinho? É disso que eu tou falando, meu compana. Se você achar que o teu molho não tá lá muito vermelho, tá meio esquisito, pode jogar um pouco de molho de tomate pra ajudar.. Imagina que você vai jogar uma lata inteira de um treco branco lá dentro, e o resultado final do strogonoff é uma cor meio laranja.. Então bota essa palheta de cores pra funcionar e corrige o quanto julgar no molho.

Se você for daltônico, pensa que teu molho tem que estar com um azul bem maneiro, e o resultado final do estrogonoff é um negócio meio amarelo-limão. Aí você pega aquele molho de tomate bem lilás que tem na sua geladeira e boa sorte aí pra ir corrigindo as cores. Enfim.

Mas que treco é esse que vamos colocar? É Creme de Leite, meu caro amigo.. Aquele que sai do peitinho da vaca, que passou por um processo show de bola que eu não sei qual é, mas no final o qu era pra ser comida de bezerro vira um treco bem cremosinho...

Só que você não pode simplesmente sair jogando creme de leite pelo mundo assim.. Tem que tomar alguns cidados antes.. O creme de leite pode talhar com a temperatura, o fogo aceso, etc... Então desliga o fogo, joga o creme de leite lá dentro, mexe e pronto.

Tá feito o seu Strogonoff!

Carne de panela tipo gambiarra

Quando eu era moleque, tinha um matuto na televisão chamado McGyver. Matuto, matreiro e malaco, McGyver se livrava de todo tipo de perrengue usando apenas das ferramentas que dispunha, derrotando de vietcongues a comunistas com objetos simplórios como chicletes mastigados e clips de papel. Imagina a cena: o bichão tá lá, na serra do Camboja, cercado de vietcongues loucos pra depilarem aquele topete anos 80, e o cara se safa usando titica de macaco e folha de taioba. Não sei tem taioba no Camboja, mas caso não haja, substitua pela vegetação cambojana de sua preferência.

levando o míssil pra passear.

A isso se dá o nome de GAMBIARRA. Ao ato ou efeito de utilizar-se de material inadequado, improvável e inacreditável para resolver temporariamente determinada situação. Eu faço gambiarra, você faz gambiarra. Não mintamos, todo mundo já fez aquele remendão com fita crepe, já grudou alguma coisa com cliclete ou, pelo menos, já escovou o dente com o dedo na falta de uma escova. 
Adendo para gambiarras das quais me lembro:
1 - Quando era menino, um vizinho tinha um Passatão detonadaço, que ele emprestava pra minha mãe me buscar na escola. O passatão não tinha chave. Tinha um interruptor, igual a esse que você usa pra acender a luz do quarto. #gambiarra
2 - Certa vez, o pedal da embreagem do meu carro afundou, e não queria mais voltat. No meio da avenida Bandeirantes, eu tinha que tirar o carro dali. Percebi que, se puxasse o pedal com o pé, ele voltava e eu conseguia engatar as marchas, mas ao pisar nele, afundava novamente. Não tive dúvida, peguei una daquelas cordas elásticas no porta-malas e amarrei o pedal na base do banco do motorista. Funcionou perfeitamente, e eu admito que rodei mais de um mês assim. #gambiarra
3 - Já fiz muita churrasqueira usando a grelha do fogão da minha mãe #gambiarra
Pois essa receita começa com uma revelação. Você acha que tá dificil aí na serra do Camboja, vietcongue na cola, formiga de um quilo e meio subindo pela canela, sanguessuga que rosna e tigre de bengala? Quero ver você ser churrasqueiro e casar com uma vegetariana, só pra ver a quantidade de gambiarra que vai ter que  fazer na sua culinária, parceiro.

O fato é que a ironia do século aconteceu logo comigo, e o churrasqueiro que lhes fala decidiu casar-se com uma vegetariana. O que não é nem um pouco ruim visto que eu amo muito a garota em questão, mas tenho que admitir que o preparo das refeições lá em casa é sempre uma aventura, regada a doses cavalares de gambiarra. 

Para suprir aquela vontade de comer carne no meio da madrugada, eu sempre tenho na geladeira alguns espetos, daqueles quadradinhos que a gente compra pronto. Espeto Lili, Fifi, não me lembro como são conhecidos aqui em São Paulo. Pode chamar também de espetinho de gato que ele atende. Miando, mas atende. Quando bate aquela vontade de meter os dentes numa coisa que viveu, amou, teve família e amigos, eu esquento um daqueles no forninho elétrico e tá feita a graça. Acha que isso é gambiarra? Ainda não viu nada, parceiro. Vem comigo.

Aqui em casa, assim como na sua casa, tem miojo. Todo mundo tem sempre aquele pacotão de miojo guardado pra uma larica inesperada, uma preguiça de fazer comida ou algo do tipo. Eu tenho, você tem. Não minta pra mim que eu não minto pra você.

Já falamos de espeto de gato, já falamos de miojo. Vai guardando tudo aí nessa memória sofrida que essa receita vai ser cheia de coisas improváveis.

Aí estava eu em casa, morrendo de fome, esposa preparando aquela seleta de legumes não muito apetitosa, quando me bate uma vontade imensa de comer alguma coisa com carne. Porém, tão grande quanto a vontade estava a preguiça de dirigir o esqueleto até algum mercado para a compra de ingredientes adequados. É exatamente nesse momento que te desce o espírito mcgyver, e você decide que na falta dos ingredientes adequados, você vai cozinhar com os inadequados mesmo. Pois pode amarrar a sua panela com arame e meter o bombril na antena parabólica, porque vai começar a receita mais bizarra de carne de panela que você já viu. Mas garanto: continua a ler, não desiste porque fica gostosa.

O primeiro ponto é que você vai usar a carne quadrada do espeto de gato. Logo, seja esperto e retire os cubos de carne do palito. Uns 5 espetos dão uma boa refeição. A grande moral desse parágrafo é: quem não tem boi, caça com gato.

O espeto de gato já vem, normalmente, temperado. Mas na dúvida, é sempre bom dar um toque gourmet a mais (adoro esse termo: gourmet. Faz qualquer comida furreca virar prato de madame). No meu caso, joguei a gataiada num pote e adicionei um pouco de azeite, pimenta do reino, orégano e sal. Mas você pode temperar com o que quiser, desde que não esqueça de que o churrasquinho já vem temperado. Portanto, não exagere.

Agora, dá aquela checada no esparadrapo que prende a haste do óculos, confere a hipermetropia, prepara uma faca afiada e picota uma cebola pequena nos menores pedaços que conseguir. Você vai descobrir qual o menor pedaço que você consegue quando o sangue começar a escorrer do dedão.

Isto feito, manda todo mundo pra panela: cebola, azeite, gato em cubos. Barriga no fogão e vamos em frente. A idéia é fritar os cubos de carne até eles diminuírem de tamanho. O espeto de gato tem uma cor muito característica, e se você já saboreou um espetinho na porta do estádio, vai saber o ponto do bichano.

Já te falei pra abrir uma cerveja? Não? Então abre duas. Uma pra você, aprecie tudo num golão com moderação, e outra pra jogar dentro da panela. Isso mesmo, o molho da carne de panela vai ser feita de cerveja. Espeto de gato, cerveja.. Parece comida da geral do maraca.

Quando a espuma da cerveja der uma baixada, é hora de engrossar esse caldo aí. E como faz isso? Com farinha, meu compana. Farinha. Mas não adianta simplesmente sair jogando farinha na panela que vai empelotar tudo. Então a dica é pegar um pouquinho da cerveja quente na panela, uma meia xícara, talvez um pouco menos. Na mesma xícara, você deposita umas 3 colheradas de farinha, e mexe até que fique tudo homogêneo. Pode ir largando essa preguiça de lado, mexe esse trem aí que o segredo taí.

Agora é só jogar na panela e mexer com a colher de pau (ou com o instrumento que lhe convier, caso o espírito mcgyver tenha tomado conta da sua carroceria).Vai mexendo, que a parada vai engrossando. Até a hora que você perceber que não adianta mais mexer, que o caldo não vai mais engrossar. Aí você pára e tá pronto o rango.

Ah, tá pronto nada. Se você der uma colherada no caldo, vai perceber que ainda está meio sem gosto. Isso acontece porque o churrasquinho de gato não tem taaaaanto sabor assim. Então, o que fazemos nessa hora? Gambiarra, compana. Vem comigo.

Lembra que eu falei do miojo, que eu tenho em casa e sei que você também tem? Então...

Eu deveria ter vergonha de escrever isso aqui nesse blog.

Ainda tou com vergonha.

Bom, tenho que assumir que encontrei um pacotinho de tempero de miojo com um boizinho desenhado, o que significa que o tempero era de carne. O que me leva a crer que aquele miojo fora consumido pela esposa vegetariana, que desacartou o tempero de carne, fazendo ela mesma alguma gambiarra para o miojo ganhar algum sabor. E, uma vez que já tinha dado uma cerveja pra um espeto de gato, o que seria um temperinho de miojo no meio de tanta gambiarra, não é? Tá no inferno, abraça o capeta, parceiro.

Pois adicionei o tempero de miojo, mexi, deixei ferver mais alguns segundos e pronto.

O resultado foi, não sei se a fome que sentia tem alguma coisa a ver com isso, bastante positivo. O molho ficou com um gosto delicioso, a carne macia (também, o que tem de amaciante nesses espetos), tudo saboroso.

Para acompanhar tão degradante iguaria, recomendo um arroz branco, talvez um pouquinho de batata palha também.

Escapar do vietcongue é moleza, quero ver agora quem é que tem coragem de preparar essa receita aqui :-)

Pensamentos de uma cabeça de alho

Cabeça vazia, oficina do diabo, já dizia a minha vó. Aposto um bulbo e um cerebelo como a sua também dizia isso. Aliás, pensando aqui com meus botões, já parou pra pensar como a vó de todo mundo usa as mesmas expressões? E já parou pra pensar como é mal-pensada essa expressão de parar pra pensar? Quero pensar sem parar, essa maluquice de parar pra pensar só existe na cabeça de quem pensou esse pensamento. Parado, provavelmente. E por falar em existir, existe a máxima que diz: "penso, logo existo". E quem não pensa, não existe? Conheço uma meia dúzia de seres que não parecem pensar muito, não. Eles não existem?

Existem sim. Se não existissem, ninguém passaria na porta da minha casa com o som do carro no último volume, no qual uma garota esganiçada grita A PORRADA COME, entre outras pérolas e impropérios. Quem mora na periferia, assim como este que vos escreve, sabe do que eu tou falando. Para aqueles que tiveram a sorte de estabelecer residência longe do funk, o nome da música por si só é auto-explicativo.

A cabeça da gente é uma coisa louca. Isso porque a gente existe, porque pensa, e segundo o maluco-beleza, quem pensa, pensa melhor parado. E, embora eu não concorde com esse lance de parar pra pensar, tem que concordar. Ou não. E a cabeça que não pensa? A que não pensa faz funk. Ou tempera a comida, e é dessa segunda que vamos discorrer.  A cabeça do alho.

Pensando nisso...

Prezado escriba do Gato na Grelha. 

Vimos por meio desta informar-lhe que isto que vem fazendo não se trata de pensamento, mas sim de embromação. E das bem safadas. De modo que solicitamos ao setor responsável que dê fim à enrolação e adentre imediatamente ao assunto.

Att.
A4LBDGG - Associação dos 4 leitores do blog Deitando o Gato na Grelha

Assim sendo, vamos ao assunto.

Qualquer cabeça-oca sabe que o melhor lugar pra armazenar o alho é dentro do freezer. Congelado. Isso porque ele fica, por óbvio, sólido, tornando mais fácil o trabalho de picotar bem pequeno o dentinho dele. Além disso, no estado sólido, ele fica mais seco, a casquinha do dente solta muito mais fácil, e faz muito menos meleca na sua mão. Confia na dica: alho e chicabon, lado a lado, numa geladeira próxima de você.

Ainda no quesito meleca na mão, ouvi falar de um cabeça de bagre que manipulou um alho daqueles bem caprichados e depois foi fazer carinho no rostinho de uma bela garota numa noite de luar. Nem preciso dizer que a bela garota meteu-lhe um chapéu de touro pra decorar a cabeça, sapecou-lhe um pé na bunda e um tremendo safanão. E nós não queremos que isso aconteça, certo? Eu não quero. E imagino que você também não queira. Então, após manipular o alho, basta ligar a torneira e esfregar as pontas dos dedos nas costas da faca cuidando, claro, para não decepar os dedos. Alguns poucos segundos nesse esfrega-esfrega de dedo nas costas da faca e pronto: sai sangue pra caramba os dedos perdem aquele cheirão de alho, livrando suas mãos do mal cheiro e evitando antena no seu telhado.

Aí tem a dica da cabeça de alho na cerveja no canto da churrasqueira. Receita esta já anteriormente abordada aqui neste blog, mas se você prefere, pula comigo de cabeça nesse flash-back, que eu te conto o segredo da longevidade: Basicamente, você toma alegre e supimpamente uma lata de cerveja, depois pega a faca e tira fora a tampa da cerveja. Como? Simples: cortando em qualquer lugar o alumínio desde que fique do meio pra cima da lata. Corta de qualquer jeito mesmo, sem carinho e sem delicadeza. Aí você joga lá dentro uma cabeça inteira de alho, cobre com aquela cerveja vagabunda que o cunhado levou, e bota no cantinho da churraca. De vez em quando, dá uma completada na cerveja, pro alho ficar sempre hidratado. Funciona assim: 10 goles pra você, um gole pro alho. Mais 10 goles pra você, mais um gole pro alho. Repita o procedimento por, mais ou menos, uma hora. Aí você usa essa cabeça pra tirar a lata lá de dentro sem queimar a mão, tira o cabeção do alho lá de dentro, e, com as costas da faca, sempre ela, espreme sobre a tábua. O alho vira uma pasta super saborosa, sem aquela nhaca que costuma deixar aquele bafo sem-vergonha. Aí você pode comer com pão, com qualquer coisa. Eu, sinceramente, recomendo passar na barriguinha de uma bela peça de picanha e mandar de volta pra churraca. É uma coisa de outro mundo, por mais que pareça um loucura jogar alho na lata de cerveja e mandar ambos pra churrasqueira esperando um patê como produto final. Mas acredite, é bom.

E, pra completar, eu falei tanto de alho, que no final das contas eu vou contar uma coisa que vai te deixar de cabeça quente. Eu aboli o alho da minha culinária. Sério. Não confunda com abolir o alho da minha alimentação, que isso já é demais. Acontece que eu me casei com uma garota que, apesar de linda, não gosta de alho. Ninguém é perfeito, já dizia o piloto Peter [/corrida maluca]. Aí comecei  a reduzir o alho da minha comida, e quando dei por mim: cadê? tinha desencanado de colocar tal condimento na maioria das coisas que faço. E sabe o que eu acho disso tudo? Nada. A comida continua gostosa, a mocinha gosta e eu não sinto falta do alho, não.

O que não significa que eu não goste mais, ou que tenha entrado em alguma dieta pós-moderna da desconstrução da alimentação enquanto chaga da sociedade, porque não tem nada disso. Apenas experimentei algo diferente.

Coisa de gente cabeça :-)