Sob nova direção


Já começo este post no melhor estilo Gato na Grelha, que você já conhece desde os idos de 2009: mentindo. Aqui a coisa funciona assim: a gente mente na cara dura e você que se amalandre pra não cair na nossa conversa.

A parada é que não tem nada aqui sob nova direção. Esta porcaria tem dono e vocês vão ter que me engolir [\zagallo]. Um dono malemolentemente relapso, mas tem um dono.

Isso aqui é praticamente um cachorro de mendigo: tá mal cuidado, tá pulguento, tá com fome, toma chuva e dorme no papelão, mas não larga o dorme-sujo de jeito nenhum. E por muito mais de 10 anos esse pulguento aqui tem perambulado atrás de mim, pedindo um pouco de atenção e um osso de galinha de vez em quando.

Logo, eu e essa casa muito engraçada sem teto e sem nada nos amamos. Aí essa coisa toda de amor escoando pelas ventas me coloca numa situação decerto delicada. Porque eu amo isso aqui.

Aí você, o mais amado dos leitores, vem até aqui e lê as mal colocadas colocações que escrevo sem o menor compromisso com o bom português. Nem com a verdade.

E quando você lê o Gato na Grelha, o Gato na grelha te ama. O cachorro, no caso, é o Gato na Grelha. Gosto de acreditar que tenha exercitado esse seu neurônio malfalado nos ultimos 10 anos e esteja entendendo o meu pensamento.

Só que se eu amo o Gato na Grelha e o Gato na Grelha te ama, eu fico com ciúmes de você.

De você e de outros dois milhões, cento e nove mil, quatrocentos e setenta e cinco outras pessoas. Tomei este susto quando vi as estatísticas do blog nesta linda manhã de domingo. 

O que me coloca numa situaçõa mais delicada ainda.

E pensando em mulheres, dinheiro e iate servir bem pra servir sempre, aliado a um conjunto de fatores tranquilos e favoráveis, me fizeram sentir vontade de despejar meus mais desconexos pensamentos gastronômicos aqui novamente. E aqui estamos de volta.

Antes de entender porque voltamos, seria justo que gente mentirosa como nós aproveitássemos o sublime momento pra  expor alguns fatos. E lá vão eles:

- Eu escrevia aqui com bastante frequencia, porque eu tinha uma vida e uma rotina bastante propícias para isso.

- Só que a minha vida, nem sempre sob meu comando navegou por mares nunca dantes navegados e aí ficou impossível dar andamento a esta nada nobre obra literária.

- Churrasco, pra mim, virou raridade. Escrever sobre churrasco, então... nem em sonho.

Como deve se portar todo mendigo de bem, continuei me alimentando mal e fazendo uso abusivo de álcool e outras substâncias que se encontram à venda em todo boteco porco que se preze.

E o excesso de cerveja vagabunda, torresmo, ovo rosa, bolovo e salsicha à milanesa me deixaram doente.

Doente pra caraio. E essa parte aqui não é mentira não.

Fiquei doente de ficar amigo do enfermeiro da UTI. De saber o número do prontuário de cor. De saber nome de remédio além da Dipirona. De se ferrar grandão.

De fazer um transplante de fígado.

Isso não é mentira. Aqui a gente mente a rodo, mas sempre avisa quando tá mentindo. 

Então este que vos escreve é um ser sem dinheiro, sem moral e que não é dono nem do próprio fígado.

Se você acha que dá pra manter amizade com gente assim, continua aqui. Se não confia e se não continar lendo o Gato na Grelha, meu amigo dono do meu fígado vai puxar o seu pé. Esse cara é parceiro, tipo um anjo da guarda só que ao contrário. 

Ele teve a linda e bondosa idéia de avisar a família que gostaria de doar seus órgãos. Eu tava lá na UTI num estado deplorável precisando de um. Batemos um papo legal, assinamos o DUT e agora ambos partilhamos de um fígado semi-novo.

Talvez em posts anteriores eu tenha falado sobre judiar do figão ou algo do tipo. Eu tava falando do outro fígado, tá? Aquele foi pra universidade ser estudado pelos alunos por algum professor que mostra que não se deve fazer cagada com a própria saúde a ponto de seu fígado parecer um pacote de whiskas sachê.

Eu falo bem do meu fígado semi-novo. Meu amigo aqui tem a vaidade dele, né? Sempre bom dar aquela enaltecida nos amigos. Ainda mais um que salvou a sua vida.

Aproveita e fala pra sua família que você também quer doar esse seu corpinho gostoso. Recomendo doar apenas somente após a morte, ok? Mas não perde a chance de fazer alguma coisa que preste e doa isso tudo aí. Você salva umas 8 vidas e fica todo mundo feliz. Menos você que morreu, mas melhor doar do que deixar pra minhoca comer, ok?

Tá dada a dica. 

Voltando ao ponto, eu dizia que a gente - eu e ele, gostamos de loucas aventuras e de meter a cara no fogo. Tem risco? Tou dentro, é o que diz meu parceiro aqui. Como eu também digo, decidimos juntos que era a hora de retomar a vida de churrasqueiros e preparar muita carne e todo tipo de guloseimas pra você.

Como minha vida acabou virando uma democracia onde eu e ele temos que decidir tudo juntos, nós resolvemos mudar algumas diretrizes aqui nesta espelunca.

Vem comigo que eu te conto:

Ana Maria Braga
Outrora muito sacaneada aqui, não mais será. A partir deste momento, dona Ana vira nossa musa, nossa inspiração, nossa Deusa. 

Primeiro que ela virou uma senhorinha e não fica mais inventando sorvete de creme com picanha na TV. Ela se limita a falar - sem mexer a boca - suas mensagens motivacionais toda manhã. 

"ACORDA ALZARENTO ESCOVA ESSES DENTE SENÃO EU TE CUBRO DE PORRADA". Minha mãe era muito mais eficiente em motivar a rapazeada logo pela manhã, mas a dona Ana tá fazendo o melhor que pode. Merece respeito.

Agora falando sério, eu passei perrengues inomináveis no meu transplante, e sei o que é vencer uma doença. ou enfrentar de peito aberto. E a Ana Maria Braga venceu não um, mas DOIS cânceres. E depois de tudo o que eu passei, não posso não apoiar e respeitar uma lutadora assim. 

Respeito define.

Gatos
A vida, esse jumento desembestado ca gente nas costa é um bicho tão dois que eu, que nunca tinha tido gato, agora tenho um monte. E contando.

O principal e queridão aqui é o Whisky. Um gato absolutamente maluco que protagoniza altas fanfarrices numa casa muito louca. Vocês ouvirão muito falar dele.

A irmã dele é a Tequila. Acho que esses nomes dão uma dica de porque eu fiz um transplante de fígado. Enfim. 

A Tequila é uma gatinha linda, gordinha, manhosa e tagarela. Não é louca como o Whisky, mas é louca de outra maneira. Vocês ouvirão falar dela.

Tem o Gerente, um gato que invadiu a minha oficina e resolveu morar lá. O Gerente é um gato barrigudo, vesgo, rabo curto mas muito simpático. Esse vai ser mais presente, uma vez que ele mora onde fica a churrasqueira e às vezes até dorme dentro dela.

Aí no quintal ainda tem a Luna, a Marina, o Frajola, a Pantera e até bem pouco tempo atrás tinha o Cara de Minhoca, que fugiu e nunca mais voltou. Provavelmente atrás de outro mendigo.

Logo, esse blog passa a flertar com o perigo desgovernadamente. Um blog chamado Gato na Grelha, onde a grelha em si vive cercada de gatos.... não vou continuar hahaha.

Quem quer dinheiro?
Durante o perído de ouro deste blog, eu negava todo e qualquer patrocínio pago. 

Um idiota.

Hoje eu vejo que temos mais de 2 milhões de views e já era pra eu estar rico fazendo churrasco nas ilhas Cayman usando nota de cem pra acender o carvão. Mas eu fui burro e continuo pobre.

Então agora vamos ter sim alguns jabás aqui. No mesmo estilo malemolente e sem valores de sempre: se o produto for ruim, a gente desce o pau. 


E pra finalizar, eu não pretendo reescrever coisas antigas daqui. Mas precisamos - todos - ponderar que isso aqui começou a ser escrito em 2009, e muitas regras de comportamento e respeito ao próximo evoluíram, e vejo isso como uma coisa muito positiva.

Sinceramente, preconceito de nenhuma natureza jamais fez parte da minha personalidade, intenções ou ações. Mas hoje, eu não apenas respeito como também defendo ferrenhamente dfierenças e e minorias.

Na real, não deveríamos ser diferentes ou menores. Tudo igual, feito de carne e osso, fazendo cocô e chupando laranja com barulho. 

Na posição de uma pessoa que teve a vida salva por um fígado que veio de um desconhecido, eu me coloco como a última pessoa do planeta a aceitar qualquer tipo de preconceito. 

Afinal, eu não sei quem foi meu doador. Preto, branco, verde, azul, cis, trans, índio, curintiano? Só sei que ele tinha 74 anos e 1,58m. O resto, a lei dos transplantes protege e eu não sei mais nada.

Só que ele fica aqui sussurando aqui no meu ouvido.

Que ele ficou sussurando que era pra eu voltar aqui e desperdiçar o meu mau portugês (com U mesmo) mais uma vez e retomar aquela comunidade tão divertida que criamos. 

Mas tudo com muito, muito respeito.

Doe seus órgãos. E leia o Gato na Grelha :-)

Sejam bem vindos de volta a este antro da pior gastronomia que você vai querer praticar hoje.

É verdade esse bilete.

70 tons de alcachofra

Imagino que o mais monocromático dos leitores, assim como os coloridos e os incolores assistiu/leu a "50 Tons de Cinza", acertei? Nao? Entao puxa uma cadeira, senta aí que eu vou te dar o resumo da resenha: Tem um maluco chamado Christian Grey, que é, literalmente, o dono do mundo. O cara tem um prédio, um monte deles. Tem um helicóptero maneiro, tem um carro maneiro, tem um saldo bancário maneiro, um monte de tudo isso. Até bonito o puto é. O tipo do cara que, só de pensar, te faz remeter a si mesmo como o último dos homens, um looser, cagador de fraldas. Só que esse povo muito rico tende a ter uns hábitos sexuais meio esquisitos, o que é o caso do nosso amigo e, nesse caso, recomendo enfaticamente que se mantenha a uma distância saudável das mulheres, homens e animais da minha família. A parte chata é que ele é o dono do mundo e se quiser, o cabra vai lá e COMPRA a minha família. Compra a sua também, vai por mim.

Pronto, resumida uma obra que nao vale um vintém, mas fez um sucesso doido no mundo inteiro.

Momento silvio santos: eu nao li o livro, mas minha esposa leu e me contou cada pedacinho da epopéia do tiozinho rico mimado que gostava de amarrar mocinhas e descer o chicote nos bumbuns delas. Sabe de nada, inocente, já diria cumpadi washinton, entre uma descida na boquinha da garrafa e uma segurada no tchan. Mas eu vi o filme, ok? Nao tou te enganando.

Aí neste momento, o mais curioso, sapiente e malemolente dos leitores me pergunta: caro blogueiro, que diabos isso tudo tem a ver com alcachofras? Simples como uma raíz cúbica elevada a septuagésima potencia. Christian Grey te faz se sentir menos homem? Só porque ele tem um helicóptero maneiro e você aí desfilando na via a bordo daquele chevettao 77 surrado, velho de guerra? Pois a mim ele nao atinge.

Nao sei até onde o mérito é válido, mas eu tenho uma coisa que o bonitao aí nao tem. Problema na visícula sendo (mal) tratado pelo SUS. Nao discutamos o mérito da questao, mas se ele pode ter tudo o que quiser, porque nao tem lama na visícula? É malaco, Mr. Grey? Entao entra no saguao do hospital da pedreira e fala: sou fodao e tá doendo. Mano, tem tanta gente arrebentada naquele lugar, que te faz sentir dó das pessoas. Mesmo sentindo uma dor do capiroto em tudo dentro de você. O SUS é tipo um exercício de resiliência. Nao importa o que acontecer com você, sempre vai ter alguém pior que você. Muito pior.

Exemplo prático e verdadeiro: na minha última consulta, o médico achou que vazou qualquer gororoba da minha vesícula e com isso o fígado se lascou todo. Aí me mandou fazer um ultrassom. Entrei na salinha em pânico, pensando em cada cerveja que tomei na vida, pensando que eu tinha o mais podre dos fígados dentro de mim. Exame feito, a enfermeira carinhosamente arremessou um pedaço de papel pra que eu limpasse a quantidade industrial de KY que havia passado na minha barriga, me recompus e abri a porta. O próximo paciente estava na porta esperando. Amigo, o tiozinho nao tinha melanina na pele. Tinha lodo. Era um velhote mequetrefe, magrelo e baixinho. E VERDE. Manja o pessoal do avatar? passa um photoshop ali e troca o azul por um verde claro bem nojento. Pois entao, meu fígado parou de doer NA HORA, eu voltei sorrindo pra sala do médico, me sentindo super saudável. O SUS é assim. Se um dia bater aquela tristeza, aquele momento em que voce acha que esqueceu o sentido da vida... finge uma enfermidade e dá um pulo no SUS. Você vai voltar pra casa agradecendo a deus por ter apenas um HIV positivo, uma herpes-zoster, um câncer terminal.. So nao pode ter alzheimer, porque senao você esquece que viu o zombie walk de verdade.

Voltando ao papo de visícula, nessas de viver numa dieta extremamente restritiva, onde você nao pode comer nada do que é gostoso, você acaba descobrindo que a Alcachofra, além de nao atiçar a ridícula, ainda faz bem pro fígado e adjacências, incluindo a mesma.

Mr. Grey nao teria culhoes para descobrir isso. Por isso nao tem problema na vesícula. Pq isso aí é pros fortes. Mr. Grey nao descobriria nada. Mandaria um capanga descobrir. Mr. Grey nao é dos fortes. Ele contrata fortes. Só que a alcachofra é tinhosa, e certamente o capanga ia odiar alcachofra, como eu mesmo descobri. Aposto que o mais nojentinho dos leitores já está fazendo biquinho pra alcachofra. Talvez eu seja a única pessoa no mundo a amar essa comida de louco. Porque TODOS os balconistas de supermercado onde eu comprei alcachofras olharam pra elas com cara de nojo. Nas gôndolas eu encontrava sempre as mesmas alcachofras, até que eu as comprasse todas, e tivesse de encontrar outro estabelecimento para, paulatinamente, esvaziar suas prateleiras.

E nao foram poucas. Chora, Christian Grey. Duvido que com esse seu paladar Joao Dória, você teria coragem de comer 70 alcachofras durante uma safra, que dura pouquissimo. Vai de outubro a dezembro. Mr. Grey, o senhor pode ter uma sala com chicote, balança, cinta-trolha e aquaplay erótico, mas nao tem a moral de caçar - e comer - 70 alcachofras em menos de 3 meses. Foi assim: em todo lugar que eu encontrava alcachofra, eu comprava. Tinha que aproveitar, e com isso... acabei comendo 70. Nao me arrependo de nenhuma delas.

Chora, rapaz. Nao da pra ter tudo nessa vida. Nao vê o Trump com o murinho dele? Nao adianta ter cor de boto do pará, pq nem assim você convence todas as pessoas da merda que você quer fazer. Muro, trump? Acha mesmo que um muro vai resolver todos os problemas do mundo? Mexicano é latino, parça. Eles VAO dar um jeito de burlar o seu muro.

Engole o choro, Chris, e veja abaixo como preparar essa iguaria da maneira mais delícia possível.

- Encha uma panela de pressao com água, até a metade.
- Você vai precisar de uma colher de sopa de sal pra cada alcachofra. Nao pense que vai ficar salgado. A Alcachofra é uma flor (pior que é mesmo), e os temperos tem dificuldade de penetrar na moça (viu, Christian? Nao é todo mundo, viu).
- Aqui em casa eu sempre fiz 2 alcachofras por vez na mesma panela de pressao.
- Agora picote 2 dentes de alho para cada alcachofra. Picote de maneira que cada pedaço de alho fique do tamanho de meio caroço de milho. Ou seja: nem mto grande, nem mto pequeno. Nao deixe de colocar o alho (sem trocadilhos, taradao).
- Próximo passo: Salsa desidratada. Jogue bastante, pensa que um saquinho tradicional vai temperar apenas umas 5 alcachofras. Taca na panela sem dó. Ah, nao use salsa fresca. O legal é o gosto de defumado que a salsa desidratada deixa.
- Por fim, um fiozinho de azeite por cima das flores e boa. Se nao colocar o azeite, as folhas ficam um pouco secas.
- Tampe a panela, e conte 25/30 minutos após pegar pressao. Nao deixa passar demais, vc derrete as alcachofras. Nao deixe menos, fica tudo duro e ruim. O ideal é vc abrir a panela perto dos 30 minutos, e puxar uma folhinha do meio dela. Sem queimar a mao, isso é com voce.

Agora é só começar de degustar folha a folha. Faz sujeira, escorre caldo pelo braço, meleca a mao, faz uma tonalada de lixo, enfim. É complicado, mas vale a pena. Tire, com os dentes, o creminho cinza que fica na parte interna das folhas. Sem essa frescura de comer só o miolo. Tem que comer TUDO.

Agora, se me cabe um adendo... Sr. Grey, a temporada está no fim aqui. Se num dos países que o senhor comprou mundo afora ainda tiver, pega esse helicoptero maneiro e traz pra mim? Só nao vem com conversa furada pq eu nao vou "pagar" nada por elas, hein!!

Gnocchi: Uma comida com nome de barulho. Hein??

É naquele momento em que o mais malaco dos leitores já anda pensando que você tá comendo capim pela raíz, dormindo de pé junto e cabelo deitado, que você, tal qual um zumbi, ressurge dos cafundós do fundo do plâncton do pântano, quebrando tudo com uma larga insônia e uma vontade louca de tirar a poeira dos dedos, do blog e dessa mente capta (SIC - agora aguenta que voltamos com trocadilho ruim e tudo. Se quiser parar de ler, rabugento leitor, a  hora é essa).

Trocando em miúdos: Levando este blog como tenho feito, me sinto como aquele velho safado cachaceiro de 114 anos, que pra morrer é só deitar com força, mas se recusa a dar o último suspiro. Então, provando que vaso ruim não quebra, que ri melhor quem ri por último e que a última gota é sempre da cueca, profetizo que a espelunca está novamente aberta!!!! Chega junto e traz cerveja porque hoje é dia de lavar o bigode por aqui.

E sem mais delongas, vamos logo meter os dentes nessa enigmática receita de hoje, o Nhoc! E durma-se com um barulho desses (há! mais um trocadilho tão afável quanto inoportuno).

Como já escrito certo pelas linhas tortas aqui neste pergaminho, eu venho de família italiana. Logo, tão certo quanto dois e dois [=SOMA(2+2) e viva o excel] são 4, eu tenho um curriculo invejável na arte e ofício de comer gnocchi. Experiência esta adquirida através da inacreditável habilidade da minha nonna, a Dona Ivette (pensa no nível de fanfarrice da família: uma italiana com nome francês), que sempre preparou o mais suculento, opulento e calorento gnocchi do mundo.

Aliás, esse nome por si só é uma fanfarrice. Não, não vou discorrer sobre o nome francês da minha avó italiana. Embora essa seja uma história à parte, no momento vamos mesmo decifrar o porque essa comida tem nome de barulho.

Antes de mais nada, tem uma coisa que me incomoda nesta madrugada, além dos pernilongos no meu quarto. Gnocchi é uma maneira muito chique e elegante de escrever o nome que, falado, fica fuleiro pra caramba. Então podemos chamar o nosso nobre companheiro de Nhoque?

Pode?
Pode.
Brigadú, fabio junior. Pau no gato, rapaziada!

Nhoque não é crocante. Logo, não deveria ter nome de barulho. Não é como um hotdog, que você morde e fica ali a dentadura marcada no pão, dando a clara noção de que ali rolou um NHOC!. Nhoque não é como as torradas, que fazem uma barulheira dentro da boca e você tem que aumentar o som da TV enquanto mastiga. E por fim, nhoque também não é sucrilhos, que você mastiga de boca fechada, e mesmo assim todos ao redor ouvem. É nessa hora que hora que o sucrilhos nos prova que boca fechada não entra mosca, e nem o mais sábio dos homens saberia porque diabos uma comida tem nome de barulho.

E quando o mais sábio não sabe (olha o trocadilho-lho-lho), é um sinal de que a jiripoca vai piar. E compartilhando com vocês um pensamento que usei mil vezes na minha vida profissional....

Tão importante quanto saber, é saber quem sabe.
Daniel Rodrigues - 1977 /...
Então lhes digo: Eu sei quem sabe. E quem sabe aquilo que o sábio não sabe? Só pode ser aquele bom mafagafinhador, capaz de mafagafar não menos que 7 mafagafinhos: O Google!!

Acho que deve ser por conta da hora, mas quando perguntei pra ele, o Google me pareceu meio confuso. Tirando a baba do canto da boca e com um bafo de leão, ele me falou um monte de coisas. E como esse blog não tem nenhum compromisso com a verdade, muito pelo contrário, vamos com a explicação que achei mais bacaninha.


A história do prato é bastante antiga. Foi certamente o primeiro tipo de massa caseira - apesar do renomado gastrônomo Pellegrino Artusi, autor do clássico italiano A Ciência na Cozinha e a Arte de Comer Bem, publicado em 1891, não o enquadrar nessa categoria. O espaguete, o ravióli e companhia são posteriores. Supõe-se que o nhoque exista desde os antigos gregos e romanos.Na Itália, chamaram-no primeiramente de macarrão. Na Idade Média, porém, já era conhecido com o nome atual. Em português, escreve-se nhoque. Fica parecendo vocábulo de ascendência tupi-guarani. Em italiano, grafa-se "gnocchi". O sociólogo paulista Gabriel Bolaffi, no livro A Saga da Comida, lançado em 2000, diz significar "algo como pelota, isto é, uma pelotinha de farinha amassada com água".
O link é esse aqui.

Enfim, ninguém sabe nada. Então eu, você ou o barak obama podemos simplesmente inventar uma história e boa. Embora todo mundo tenda a acreditar mais no obama do que na gente, eu prefiro acreditar que um ET perneta, fedido e dentuço desceu de um cavalo marinho feito de cheetos tubinho, encontrou uma jibóia loira e perguntou a ela quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha. Após uma rápida consulta ao oráculo [/matrix], a jibóia respondeu que pato que come pedra sabe o cu que tem. Nesse momento começou a chover nhoque sobre a face da Terra e foram felizes para sempre.

Enquanto se pergunta qual barbitúrico o escriba desta porcaria anda consumindo, o mais impaciente dos leitores, entre um gardenal e outro quer saber por que estamos há tantos parágrafos nesta enrolação sa-fa-da e não vamos logo para a receita?

Traz o chá de folha de maracujá pro menino e avisa ele que tudo isso é porque esta é uma receita muito, muito fácil. Avisa também que o humilde autodidata que vos escreve aprendeu na novela das 8 que a enrolação faz a graça da trama e que se pode criar um par romântico entre a mariana ximenes e o toni ramos, e no final ninguém vai achar que isso não faz o menor sentido.

Então, pára de achar que as coisas aqui não fazem sentido e cola esse seu globo ocular aqui na telinha [/plim-plim] porque chegou a hora de botar tudo o que conhecemos acima, em prática.

A primeira coisa que você vai precisar é de batatas. A segunda é de farinha. E acabou. Tem gente que floreia a receita com um bilhão de especiarias, óleo de fígado de bacalhau ou purpurina de dendê. Mas não precisa de nada disso. Só batatas e farinha de trigo. Vai na minha que você não passa fome, amigo.

Primeiro temos que ter em mente qual batata usar. Eu prefiro a batata baroa, que é meio rosada. Pensa na cara de pau da cristina kirschner, pergunta mentalmente a cor da casa dela e pega a batata mais parecida. Essa batata fica meio farinhenta, e fica mais fácil chegar no ponto da massa.

Mas a batata comum também serve. Se você quiser tentar, eu já fiz até com mandioca, e ficou bem legal. So recomendo tirar aquele fiapo esquisito que tem no meio da mandioca. A sensação de encontrar aquilo no meio da mordida não é legal não.

Bom, aquiridas as batatas queridas, vamos descascá-las e botar pra ferver [UHU BOTA PRA FERVER DJ]. Pra facilitar este processo, você pode cortá-las em cubinhos pequenos, do tamanho de uma rapadura, porque aí o processo vai mais rápido.

Neste momento, você pode tentar dar uma temperada na batata. Pode colocar um pouco de sal, ou talvez um caldo de legumes. Fica como mandar o seu livre-arbítrio, democrático leitor.

Para saber se as batatas estão no ponto, e este ponto é quando você espetá-las com um garfo e os pedaços se quebrarem, espete-as com um garfo e veja se quebram. Quebrou, tá no ponto. Não quebrou, não tá no ponto. Simples como a soma dos catetos é o quadrado da hipotenusa (eu acho que errei essa de novo).

É importante as batatas estarem bem sequinhas antes de vc começar a massa. Então deixe-as numa peneira ou algo do tipo, e você aproveita pra matar dois coelhos com uma cajadada só: A batata escorre a água, e esfria evitando o posterior e vexaminoso uso de hipoglós pela sua pessoa.

É o tempo de abrir uma cerveja gelada e beber pensando no quanto tudo pode valer a pena se a alma não for pequena. Então, faça valer a pena mergulhando a alma numa cerveja, mas não a pequena.

Bebeu? Valeu a pena? Então vem comigo pra labuta.

Com as batatas que já estão um pouco mais frias (não deixe ficar gelada, elas precisam de um pouco do calor), faça um purê. Purê, como diz o sábio, é o ato ou efeito de amassar as batatas até que se transformem num creme homogênio, sem pedaços. Como você vai fazer isso é uma decisão sua para com a sua criatividade, juízo ou inteligência. Pode ser com o garfo, com a makita do vizinho ou com algum aplicativo maroto do seu iphone. O importante é que não fiquem pedaços.

Isto feito, despeje o purê num recipiente grande e manda pra dentro uma mãozada de farinha. Aí começa a festa do estica e puxa e viva a festa da xuxa. Tem que mexer com as mãos mesmo. Sem nojinho, sem frescura. Mexeu, misturou tudo? Tá colando muito na sua mão? Então mete mais farinha. Agora você tem que descer a cinderela que tem em você e usar de sensibilidade. Vai colocando farinha aos poucos até que o xico xavier te diga que tá no ponto. Vais ter que descobrir sozinho. Mas é fácil. Massa com uma textura agradável, grudando levemente nas mãos, desceu o santo e é isso aí.

Pra montar os nhoques, é bem fácil. Você vai precisar de uma superfície limpa e grande. Exemplo: o campo de futebol de botão do seu filho. Me desculpe, Rodrigo Rodrigues, mas eu fiz isso e você nem percebeu.

Para a massa não colar na superfície, espalhe uma mão de farinha pelo campo e bora lá que é hora do gol.

Você deve ir retirando pedaços da massa grande, mais ou menos do tamanho de um limão. Passa um pouco de farinha em volta, taca no campinho e começa a rolar pela farinha, fazendo uma cobrinha. Se você não se chama benjamin button e ao contrário dele, teve infância, já fez cobrinha de massinha no jardim 2 com a tia Rose. O princípio é o mesmo.

Com a cobra na mesa (ui), pegue uma faca e com ela faça cortes. Estes cortes serão bem próximos do tamanho das bolinhas do seu nhoque. Mais ou menos porque elas crescem um pouco com a água. Não precisa enrolar nem nada. A cobrinha cortada fica como uns travesseirinhos de playmobil.

O pulo do gato aqui é uma coisa que eu achava que era pura gourmetice, mas não é. Sabe aqueles risquinhos que tem no nhoque? Então, eles tem um sentido de ser. Serve para o molho agarrar nas ranhuras e quando vc pegar o nhoque no prato, ele vir mais gostoso. Pra fazer as ranhuras, dê uma apertadinha com um garfo na bolinha.

É, amigo. Com nhoque ou sem nhoque...
nós temos bolinhas

Tá pronto o nosso nhoque. O preparo é tão simples quanto roubar um doce de criança. Coloca água pra ferver com um pouco de sal e uma golada pequena de azeite, e deixa o bicho pegar. Nhoque precisa de água fervente. Assim que estiver rolando o vesúvio na sua panela, jogue os nhoques pra dentro.

As bolinhas vão, inicialmente, para o fundo da panela. À medida que elas vão subindo, você conta até 5 e tira para o próprio recipiente onde vai serví-los. A decisão sobre o instrumento mais adequando para retirá-las de lá, eu deixo para a equação que já citamos anteriormente.

Agora é só jogar o molho com surpresa, muito queijo ralado e ser feliz.


É disso que eu tou falando, amigo.

E por que o molho seria uma surpresa, questiona o curioso leitor. Então sem contarem com a vossa astúcia, o sagaz narrador desta epopéia, contrariando gregos e troianos, categoricamente afirma que, SIM, este pirilampo pedaço de papel ressurgiu não apenas para se alimentar das vossas retinas e hibernar o sono dos justos, mas que haverão mais posts, e o próximo deles falará justamente sobre o mais tradicional e glorioso MOLHO DE MACARRÃO.

Por hora, use o molho de sua preferência que eles também funcionam. Até mais, amiguinhos!
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